Hi Top Game — Meu Primeiro Videogame Era um Clone do NES e Foi o Melhor Presente da Minha Vida
Em 92/93, enquanto o Super Nintendo já existia no mundo, eu ganhei um Hi Top Game — clone brasileiro do NES — e minha vida nunca mais foi a mesma. Vem reviver isso comigo.
GAMERS




Existe um tipo específico de felicidade que só quem viveu os anos 90 no Brasil conhece.
Não é a felicidade de ter o melhor. Não é a felicidade de ter o mais moderno. É a felicidade de ter aquilo — seja lá o que for — e descobrir que aquilo era suficiente para mudar completamente a sua vida.
Em algum momento entre 1992 e 1993, eu ganhei meu primeiro videogame.
O mundo já tinha Super Nintendo. Lá fora, crianças americanas e japonesas já estavam voando em Mode 7, babando com Donkey Kong Country e experimentando 16 bits de glória pura. Mas o Brasil era o Brasil — e no Brasil, as novidades chegavam no próprio tempo, com aquela característica nacional de transformar o que poderia ser atraso em festa.
O meu presente foi um Hi Top Game. Um clone do Nintendo NES, 8 bits, cartucho cinza, dois controles e três fitas incluídas na caixa.
E foi o melhor presente que eu já recebi na vida.
Deixa eu te contar por quê.
"Quando o Brasil inventou seu próprio Nintendo"
Primeiro, um pouco de contexto para quem não viveu isso.
O Nintendo Entertainment System — o famoso NES — foi lançado nos Estados Unidos em 1985. Aqui no Brasil, por conta de impostos absurdos, legislação de informática e uma série de fatores que dariam um post inteiro só pra explicar, o videogame original nunca chegou oficialmente de forma acessível.
O que chegou foram os clones.
Fabricantes brasileiras e asiáticas produziram consoles que rodavam os mesmos cartuchos do NES, com hardware praticamente idêntico, a uma fração do preço. Tinham nomes criativos, caixas coloridas, e uma promessa simples: a experiência Nintendo sem o preço Nintendo.
O Hi Top Game era um desses. Visual compacto, acabamento humilde, mas funcional. Dois controles com aquele direcional quadrado que marcava o dedão depois de duas horas de jogo. Entrada pra cartucho no topo. E uma coleção de jogos compatíveis que era, honestamente, fantástica.
Lá fora, crianças ricas tinham o original. Aqui no Brasil, a gente tinha o clone — e jogava as mesmas fases, derrotava os mesmos chefões e sofria nas mesmas partes difíceis com a mesma intensidade.
A democracia funcionou, pelo menos no videogame.
"Três cartuchos. Uma infância inteira."


Quando meu pai chegou como o Hi Top Game em casa, vieram junto três fitas. Três cartuchos que eu não tinha pedido, não tinha escolhido, e que se tornaram os primeiros jogos da minha vida. Aqui a minha memória pode falhar um pouco, afinal são mais de 30 anos, lembro de outros jogos que podem ter vindo junto, como Tom e Jerry e Super Mario, mas os que tenho gravados de verdade são esses aqui.
Deixa eu apresentar cada um com o respeito que merecem.
🚀 Gyruss — A Fita Japonesa do Mistério
A primeira já começou com aventura antes mesmo de colocar no videogame.
O cartucho do Gyruss era japonês. Isso significava que ele não encaixava direto no Hi Top Game — o pino de conexão era diferente, o tamanho era diferente, o mundo era diferente. Precisava de um adaptador especial para funcionar.
Lembro que aquilo gerou uma pequena crise doméstica. "Como assim não encaixa?" — "Cadê o adaptador?" — "Quem vendeu isso sabia que não ia funcionar?" (Provavelmente este foi o diálogo de meu pai com o vendedor)
Depois de alguma solução criativa que envolvia o adaptador certo (ou gambiarras que prefiro não detalhar), o jogo rodou.
"O portal para novos mundos chamava-se locadora"
As três fitas da caixa foram o começo. Mas o universo do Hi Top Game se expandiu graças a duas coisas: meu irmão mais velho e as locadoras do bairro.
Meu irmão era o que eu chamaria hoje de early adopter. Ele estava sempre atrás do jogo novo, da fita que ninguém tinha ainda, da novidade que estava chegando. A locadora era o habitat natural dele — e eu era o caçula que ia junto, olhando tudo com olhos arregalados enquanto ele negociava qual fita valia a pena alugar para o fim de semana. Se alguem já se deparou com essa foto original aí de cima na internet, saiba que são literalmente eu e meu irmão. Não sabemos quem fotografou ou quando, mas a imagem taí rodando pela internet.
A locadora de videogame dos anos 90 merecia um documentário. Era um lugar sagrado.
Prateleiras de papelão com capas de jogos. Às vezes a capa era linda e o jogo era uma decepção. Às vezes a capa era modesta e o jogo mudava sua vida. O atendente conhecia tudo e dava recomendações com a autoridade de um sommelier. E havia sempre aquela fita que todo mundo queria e que estava sempre alugada — você colocava o nome numa lista de espera e torcia.
Foi pela locadora que conheci os jogos que definiram minha infância no Hi Top Game.
"Cada fita era um mundo diferente"
🗡️ Ninja Gaiden II The Dark Sword of Chaos — A Escola da Dificuldade
Ninja Gaiden II foi um dos primeiros jogos que me ensinou que videogame pode ser cruel. Ele veio numa fita emprestada de um colega nosso, onde havia uma coletânia de 8 jogos (comuns naquela época), entre eles essa pedrada!
Eu ainda não havia jogado o primeiro jogo da franquia. Você é Ryu Hayabusa, um ninja em missão de resgate. A história era apresentada em cutscenes com diálogos — inovação enorme para o NES — e o visual sombrio, noturno, cheio de inimigos que ressurgiam toda vez que você voltava uma tela. Gráfico belíssimo e uma trilha sonora que fazia você se sentir um verdadeiro ninja.
Morri mais vezes em Ninja Gaiden do que consigo contar. Mas cada morte ensinava algo. Era aquele tipo de dificuldade justa que hoje a galera chama de soulslike — naquela época a gente chamava de esse jogo é impossível e continuava tentando mesmo assim.
Nestas idas e vindas de locadoras e fitas emprestadas de amigos, podemos apreciar muitos — mas muitos mesmo — jogos de NES. Se eu fosse enumerar todos aqui, daria mais de um post, com certeza. Em breve farei isso!
Mas, só para contextualizar com o post aqui, vou mencionar os primeiros jogos além dos três que vieram com o console que mais me surpreenderam naquela época. Não estou falando dos jogos mais conhecidos ou melhores tecnicamente falando, mas dos que me causaram ótimas memórias.
E que jogo massa.
Gyruss era um shooter de nave com uma proposta épica para os padrões da época: você percorria o sistema solar inteiro, planeta por planeta, eliminando alienígenas em cada um. Saturno com seus anéis. Júpiter com seus redemoinhos. O sol lá na frente como destino final.
Para uma criança de 7 anos, aquilo era ficção científica de verdade. Eu estava viajando pelo espaço. Eu era o piloto. E cada planeta novo era uma descoberta.
O jogo tinha uma dificuldade honesta — leia-se: me matava com regularidade — mas a sensação de progredir pelo sistema solar compensava qualquer frustração.




✈️ F-15 City War — Guerra nos Céus
O segundo cartucho trocava o espaço sideral pela guerra terrena.
F-15 City War era um shooter de nave com temática militar. Você pilotava o famoso caça americano, enfrentava aviões inimigos, destruía tanques no chão, desviava de mísseis e tentava sobreviver o máximo possível.
Era mais frenético que o Gyrus, mais agressivo, com aquela energia de guerra que os jogos dos anos 80 adoravam. Não havia história, não havia personagem — havia você, sua nave e a missão de não morrer.
Para dois irmãos disputando o controle, esse jogo era perfeito: rápido, intenso, e a morte era rápida o suficiente para passar o controle logo para o próximo.
Aprendi cedo que videogame com irmão mais velho significa que você joga menos do que assiste. Mas até assistir era bom.


🏎️ Fórmula One - Built to Win — O Jogo Mais Avançado que Eu Não Sabia que Era Avançado
Agora, o mais especial dos três.
Built to Win era um jogo de corrida que, olhando para trás hoje com olhos de adulto, tinha mecânicas que estavam anos à frente do que eu reconhecia na época.
Não era só acelerar e virar. Tinha progressão. Você ganhava dinheiro correndo, e com esse dinheiro podia:
Comprar peças novas para melhorar o carro — motor, pneus, suspensão, nitro entre outros.
Trocar de carro completamente, subindo para veículos mais rápidos até alcançar o tão cobiçado Fórmula 1.
Entrar num cassino dentro do jogo para tentar multiplicar seus ganhos
Eu tinha 7 anos e estava jogando um jogo com sistema de progressão de recursos, customização de veículo e apostas. Em 1993. Num cartucho que veio de brinde num clone de Nintendo. Sem falar nos gráficos naquela época, diversar paisagens dos EUA retratadas ao fundo das pistas e corridas a noite davam toda uma imersão gratificante.
Hoje isso se chama live service game e as empresas cobram fortunas para você fazer o que o Built to Win já deixava fazer de graça em 8 bits.
Passei horas — provavelmente dias somados — naquele cassino do jogo tentando acumular dinheiro rápido para comprar o carro mais potente. Às vezes funcionava. Às vezes eu perdia tudo e tinha que correr de novo para recuperar.
Minha primeira experiência com economia virtual. Não me saí mal.










🍄 Super Mario Bros 3 — O Rei dos Reis
Se existe um jogo que define o NES, é esse.
Super Mario Bros 3 era tecnicamente impressionante para 8 bits, criativo em cada fase, cheio de segredos e com aquela progressão por mundos que deixava você sempre querendo ver o próximo. A roupa de Tanooki, a folha que deixava voar, o fato de poder guardar power-ups para usar quando quisesse.
Curiosamente, também foi-me apresentada nesta fita de 8 jogos que mencionei. Esse aqui joguei demais e passava horas tentando decifrar os segredos e passagens secretas escondidas neste jogo.
uma obra prima sem duvida.


🏰 Castlevania 3 Dracula's Curse — Terror em 8 Bits
Castlevania 3 chegou pela locadora e ficou gravado na memória por dois motivos: a trilha sonora absurdamente boa para um NES, e a dificuldade que me fez questionar minhas escolhas de vida várias vezes.
Esse jogo, sinceramente, eu assistia mais meu irmão jogando do que realmente me aventurava, tamanha a dificuldade, mas isso não tirava o brilho disso.
Você escolhia caminhos diferentes pelo castelo, desbloqueava companheiros com habilidades únicas, e enfrentava chefões que pareciam injustos até você descobrir o padrão de ataque. Era sofisticado. Era bonito nos limites do 8 bits. E era assustador de um jeito que só videogame antigo consegue ser — não com gráficos hiper-realistas, mas com atmosfera.


🪨 The Flintstones - The Rescue of Dino e Hoppy — Vilma, Esse Jogo é Difícil
Sim, tinha jogo dos Flintstones. E não, não era fácil só porque era baseado em desenho animado.
Você jogava como Fred Flintstone em aventuras pelo mundo pré-histórico, e o jogo tinha aquele charme visual de reproduzir o universo do desenho em pixels. Carros de pedra, dinossauros domesticados, Bedrock em 8 bits, coletando partes do disco voador do ET Hoppy. Isso mesmo esse jogo era mistura de pré-história com viajem no tempo e extraterrestre.
Era o tipo de jogo que você alugava achando que ia ser tranquilo e descobria que os desenvolvedores da época não tinham misericórdia com ninguém — nem com crianças que só queriam jogar de Fred Flintstone. Mas era um joguinho delicioso de jogar.


🐰 Buck O'Hare — O Desconhecido que Merecia Mais Fama
Buck O'Hare é um daqueles jogos que quem jogou lembra com carinho intenso, e quem não jogou nunca ouviu falar.
Um coelho espacial, equipe de aliados com habilidades diferentes, fases variadas e uma dificuldade equilibrada que tornava a experiência gostosa mesmo quando você morria. Era colorido, animado, cheio de personalidade e uma ótima trilha sonora.
Foi um jogo descoberto pela curadoria do meu irmão na locadora — uma daquelas escolhas de fim de semana que pareciam aleatórias e se revelavam tesouros.


💪 Super Contra — Dois Jogadores, Zero Clemência
Não estou falando do Contra 1 e sim do Super Contra, mais uma pérola da lendária fita de 8 jogos. Era o jogo para jogar com outro ser humano ao lado. E isso que marcou. Tinha muitos jogos multiplayers como Tartarugas Ninja ou Battletoads que eu jogava com meu irmão.
Mas dois soldados, tiro para todo lado, inimigos em quantidade industrial e precisão sobrenatural davam a esse multiplayer um sabor especial. E aquele código lendário — cima, cima, baixo, baixo, esquerda, direita, esquerda, direita, B, A — que dava 30 vidas e que toda criança dos anos 90 ainda consegue digitar de memória como se fosse a data do próprio aniversário.
Meu irmão e eu no Super Contra éramos uma mistura de cooperação e caos. A gente se atrapalhava, se matava sem querer, gritava um com o outro — e se divertia demais.


O Hi Top Game ficou em casa por anos. As fitas foram se acumulando, os jogos foram se sucedendo, e cada novo cartucho que chegava pela locadora era uma pequena festa.
Mais tarde vieram o Super Nintendo, o PlayStation, o Nintendo 64. Tecnologia melhor, jogos mais bonitos, experiências mais elaboradas. E eu amei cada um deles do jeito certo.
Mas nenhum console apagou o que o Hi Top Game representou. Ele ficou na nossa familia até meados dos anos 2000, infelizmente não sei qual foi o destino dele. Mas as memórias permaneceram.
Porque ele foi o primeiro. E primeiro não tem como repetir.
Foi ali, naquele aparelho humilde de 8 bits que não era nem original, que eu descobri o que era controlar um personagem na tela. Que eu aprendi que derrota faz parte, que persistência tem recompensa, que alguns jogos são injustos mas valem a pena mesmo assim. Que jogar junto com alguém — irmão, amigo, primo — era uma linguagem própria de amizade.
O Hi Top Game foi minha escola. Gyrus foi minha primeira aula. E a locadora foi minha biblioteca.
Você também teve um clone de NES em casa? Hi Top, Dynavision, Phantom System, Turbo Game — me conta qual foi o seu e quais jogos você nunca esqueceu. A seção de comentários é nossa locadora particular. 🕹️
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