Jurassic Park no Cinema em 1993 — Meu Primeiro Filme na Telona e Quase Tive um Infarto com 7 Anos
1993, Shopping Vitória, ES. Inauguração do cinema, família toda junta, e uma criança de quase 7 anos prestes a conhecer dinossauros de verdade numa tela gigante. Não esqueci até hoje.
FILMES




Tem memórias que o tempo não apaga. Não importa quantos anos passem, não importa quantas outras experiências venham depois — algumas coisas ficam guardadas num lugar especial da memória, com cheiro, cor, temperatura e tudo.
Para mim, uma dessas memórias tem exatamente a seguinte configuração: 1993, quase 7 anos de idade, família toda reunida, calor capixaba, e uma fila enorme na porta de um cinema que estava sendo inaugurado no Shopping Vitória, aqui no Espírito Santo.
O filme? Jurassic Park.
Eu não sabia direito o que era aquilo. Sabia que tinha dinossauro. Sabia que a família inteira estava animada. E sabia, pela energia contagiante daquele lugar, que algo muito diferente de tudo que eu tinha vivido até ali estava prestes a acontecer.
Eu só não sabia que eu ia sair de lá com trauma, encantamento e uma memória que carrego até hoje — tudo ao mesmo tempo.
Deixa eu te contar como foi.
"Aquele dia era diferente — a cidade inteiro sabia"
Você precisa entender o contexto para sentir o peso da coisa.
Estamos falando de 1993, no Espírito Santo. Shopping center recém inaugurado era programa de família completo — não era só ir comprar tênis ou comer no food court. Era evento. Você se arrumava. Seus pais se arrumavam. Seus avós provavelmente comentavam com os vizinhos que iam ao shopping no domingo.
E naquele dia específico, o Shopping Vitória estava inaugurando o seu cinema também.
Sabe aquela sensação de que uma cidade inteira decidiu ir pro mesmo lugar no mesmo dia? Era exatamente isso. A movimentação era diferente. As pessoas estavam mais animadas, mais bem-vestidas, conversando com desconhecidos na fila como se todo mundo fosse amigo de longa data — porque todo mundo estava ali pelo mesmo motivo.
Minha família chegou toda junta. Daquele jeito que família capixaba faz quando o programa é especial: ninguém ficou em casa. Todo mundo foi.
A fila para entrar no cinema era... vamos dizer que era generosa. Uma daquelas filas que você olha lá na frente e não enxerga o fim. E em vez de desanimar, a reação era de empolgação, porque fila grande significava que aquilo era importante. Que a gente estava no lugar certo.
Eu, com quase 7 anos, olhava tudo aquilo de baixo — literalmente, porque eu era baixinho e via mais cintura de adulto do que qualquer outra coisa — e sentia que estava participando de algo histórico.
"Sentados no chão. No chão. Mas felizes."


Aqui a história fica boa.
O cinema lotou. E quando eu digo lotou, não estou falando de "quase cheio" ou "bem movimentado". Estou falando de esgotado, superlotado, sem cadeira disponível — do jeito que hoje seria impensável e que naquela época era tratado com uma solução criativa e completamente brasileira:
"Pode sentar no chão mesmo."
E sabe o que é mais incrível? Ninguém reclamou.
Todo mundo achou normal. Justo, até. Você tinha chegado até ali, esperado na fila, o filme ia começar — era sentar no chão ou perder o espetáculo. E perder o espetáculo não era opção.
Minha família se acomodou como deu. Alguns conseguiram cadeira, outros pegaram um pedaço de chão com dignidade e determinação. Eu, sendo criança, na verdade preferia o chão — porque do chão eu tinha uma visão diferente, olhava pra tela com o pescoço esticado, e havia algo de aventureiro naquilo. Era quase como acampar dentro do cinema.
Hoje, adulto, com as costas que tenho, a simples ideia de sentar no chão de um cinema por duas horas me faz querer ligar para um ortopedista preventivamente. Mas aos 7 anos? Era a melhor coisa do mundo.
A sala escureceu.
E o mundo desapareceu.
"Eu não sabia o que ia acontecer. Mas meu corpo já sabia."


Se você já assistiu Jurassic Park, você sabe que Spielberg é um gênio da tensão.
O filme não começa com dinossauro correndo e rugindo. Ele começa devagar, no escuro, com uma gaiola sendo transportada na floresta. Com sons. Com os rostos assustados dos funcionários. Com algo invisível se mexendo atrás das grades.
E então — rapidinho, quase em flash — uma mão é puxada para dentro da gaiola.
Eu, com quase 7 anos, sentado no chão de um cinema recém-inaugurado no Espírito Santo, vi aquela cena e tomei um susto tão honesto que acho que pulei alguns centímetros do chão.
A pessoa ao meu lado — familiar, não lembro quem exatamente — riu da minha reação. Eu fingi que não tinha ficado com medo. Mas meu coração já estava em modo de emergência e o filme tinha uns 4 minutos de duração.
Depois veio a cena do parque. A música do John Williams começou a tocar — aquela que até hoje você reconhece nas primeiras três notas — e na tela apareceu o primeiro dinossauro. Um Brachiosaurus, enorme, sereno, comendo as folhas do alto de uma árvore enquanto os personagens olhavam boquiabertos.
Eu imitei exatamente a expressão deles.
Boca aberta. Olhos arregalados. Completamente esquecido de que estava sentado no chão.
Spielberg fez aquela cena para impressionar os adultos dentro do filme. Mas impressionou também uma criança de 7 anos no Espírito Santo que nunca tinha visto nada igual na vida.
Já fui ao cinema centenas de vezes depois daquele dia.
Vi filmes melhores, tecnicamente falando. Vi efeitos especiais mais avançados. Sentei em poltronas reclináveis com porta-copo e tudo. Assisti em IMAX, em 3D, em salas VIP.
Nenhuma experiência foi igual àquela.
Porque nenhuma outra tinha aquela combinação específica e irrepetível: a inauguração do cinema, a família toda junta, o Shopping Vitória em clima de festa, o chão como poltrona, e uma criança de quase 7 anos encontrando pela primeira vez a magia absoluta do cinema numa tarde de 1993.
Jurassic Park não foi só um filme pra mim. Foi a porta de entrada para uma paixão que carrego até hoje.
E quando aquela música do John Williams toca — não importa onde eu esteja, não importa o que eu esteja fazendo — eu tenho 7 anos de novo. Sentado no chão. De boca aberta. Completamente encantado.
Você se lembra do primeiro filme que viu no cinema? Me conta nos comentários. Tenho quase certeza que a memória está tão viva em você quanto a minha está em mim. 🦕


"O T-Rex, a chuva, e o fim da minha tranquilidade"
Olha, eu preciso ser honesto com você.
Eu achei que estava preparado. Tinha visto o trailer, ou algo parecido. Sabia que tinha dinossauro perigoso. Estava mentalmente pronto.
Não estava.
A cena do T-Rex à noite, com a chuva, os carros parados, a luz do banheiro apagando, o copo d'água tremendo com cada passo — aquela cena foi projetada por um ser humano que claramente tinha algum prazer em causar ansiedade em plateias inocentes.
E funcionou com maestria em mim.
Quando o T-Rex apareceu de verdade — enorme, molhado, rugindo com um som que eu sentia na barriga mais do que ouvia com os ouvidos — eu acho que parte da minha infância tranquila ficou para trás naquele momento.
Não gritei. Mas só não gritei porque fiquei paralisado, que é tecnicamente pior.
Ao meu redor, ouvi outros gritos. Adultos gritando. Adultos que tinham vivido décadas nesse planeta, que tinham passado por coisas reais e sérias na vida, gritando para uma tela de cinema. Isso me deu dois sentimentos simultâneos: primeiro, um leve alívio de que não era só eu. Segundo, um terror ainda maior porque se os adultos estavam gritando, a situação era realmente grave.
Eu fiquei colado no familiar mais próximo pelo resto da cena.


"Uma criança diferente entrou. Outra saiu."


Quando as luzes acenderam e os créditos começaram a rolar, houve um momento coletivo muito bonito naquele cinema lotado — incluindo as pessoas no chão.
Todo mundo ficou quieto por um segundo. Processando.
E então começaram os comentários, as risadas, o pessoal repassando as cenas. "Quando o T-Rex apareceu..." — "Aquela parte da cozinha com as crianças..." — "Aquele cara que levou mordida no banheiro..."
Minha família também foi assim. Todo mundo falando ao mesmo tempo, como família capixaba faz depois de qualquer evento importante — desde um jogo do Flamengo até uma missa de Natal.
Eu saí do cinema em silêncio, processando tudo.
Tinha acabado de ver a coisa mais impressionante da minha vida até aquele momento. Uma tela gigante, um som que sacudia a cadeira (ou o chão, no meu caso), dinossauros que pareciam reais demais para serem ficção — e uma história que, apesar de todo o terror, tinha me deixado com uma sensação de maravilhamento que eu não sabia nomear aos 7 anos, mas que hoje reconheço perfeitamente.
Era o cinema fazendo o que ele faz de melhor: transportar você para outro mundo completamente.
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